Mulheres Trabalho e Alentejo

Caderno de histórias de vida

Recolha e textos Marília Ribeiro

Prefácios Adelaide Teixeira, Álvaro Domingues, Isabel Marçano e Teresa Simão

1ª edição Câmara Municipal de Portalegre | 2018

“Para além das minhas experiências de vida, foi a força da minha mãe que, embora tenha morrido há já 19 anos, me impulsionou para a descoberta das histórias de vida de mulheres que hoje caminhariam pela sua idade; mulheres com responsabilidades familiares semelhantes às suas, mas acrescidas de responsabilidades profissionais. Mulheres que nasceram e cresceram no mesmo distrito que ela, mas mais perto das oportunidades de emprego oferecidas por Portalegre, uma cidade com uma vida comercial e industrial na altura ativa. Outras aprenderam a ganhar o pão no país vizinho, para o qual passavam num pé, voltando no outro, em busca de um modo de sustento muitas vezes clandestino. Outras cresceram no mundo rural que a serra de São Mamede oferecia, um mundo onde se trabalhava debaixo de um sol tórrido, debaixo dos céus chuvosos e cinzentos de frio, este mundo, mais próximo da realidade da minha mãe. Curiosamente foi aqui que encontrei um maior número de senhoras na casa dos 80 anos, a minha mãe teria 84 se fosse viva, mas, como naqueles anos os percursos de vida perpetuavam-se de uma década para a outra, as vidas das mulheres que atualmente vivem na casa dos 60, 70 e 80 têm muitas vivências que se cruzam.”*

* Excerto das notas prévias da Marília Ribeiro

“A minha vida foi trabalhar toda a vida, afirma Joaquina Silva num depoimento muito sucinto mas absolutamente esclarecedor acerca da sua condição e daqueles que partilhavam o seu mundo – temos a noite e o dia e as veredas para andar, conclui. (…)

As vidas das pessoas comuns raramente constituem matéria de interesse para além de um campo estrito onde se confinam família e amigos. A grande história dispensa os relatos na primeira pessoa, reservando essa atenção apenas para os actores principais que desempenham cargos de poder ou que são apontados como marcadores importantes nos seus campos sociais de pertença e assim são conotados como grandes escritores, artistas ou pensadores. Os “famosos”, aqueles cuja visibilidade mediática se encarrega de multiplicar ou diminuir segundo a ocasião, constituem outro grupo de quem se fala.

Face ao silêncio dos arquivos, à amnésia social ou à voragem do presente, estas histórias ficam como testemunhos de tempos em mudança, e de tempos cruzados entre a pré-modernidade e a modernidade. Por serem mulheres para quem os códigos de ética e moral eram mais severos nas sociedades tradicionalistas, os contrastes são mais vivos, embora escassos. (…)

A poesia da vida que vive nestas histórias é como esta viagem que, nos pequenos gestos, pode ser arrebatada para o firmamento como um sonho, um ímpeto de vontade para prosseguir sem grandes retóricas de pensamento, utopias ou desígnios heroicos, mas com a viva consciência de que a vida se vive com outros, com a capacidade de ser feliz e a consciência nítida da escassa possibilidade de mudar as injustiças do mundo.”

Excertos do prefácio de Álvaro Domingues

“Chegar como turista a um lugar e partir é uma experiência diferente de permanecer e entrar na comunidade, aí se fixar com interesse pela vida local e pelo seu questionamento. À superficialidade da viagem como turista ocasional contrapõe-se a viagem mais profunda no tempo e no espaço, na participação de ritmos específicos, construção do conhecimento  mútuo, pessoal mas também social.”

Excerto do prefácio de Isabel Marçano

Com aquele(a) que acabou de se cruzar com a alma deste caderno de histórias, tentei partilhar a força da natureza destas mulheres alentejanas. A força que ficou e a força que foi à procura de um futuro melhor.

Eu gostaria muito que, um dia, estas histórias fossem motivo de inspiração para um poema, para um estudo, para uma história escrita por um escritor, para um guião de uma peça de teatro…

— Marília Ribeiro | 2018

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