Ao longe o mar

Projecto de recolha e narrativas visuais realizado para acervo do Museu do Mar - Rei D. Carlos.

Cascais | 2024

Ao longe o mar é o título proposto para o projecto de recolha de memórias e histórias de vida de pescadores e gente do mar no município de Cascais, sendo o resultado dessa recolha uma exposição no Museu do Mar - Rei D. Carlos.

As pessoas e as histórias que têm dentro de si, as memórias suavizadas ou acentuadas de uma vida no mar, com o mar e para o mar, mesmo que agora só estejam em terra, são património imaterial de uma cultura local que carateriza uma região e define o país voltado para o Atlântico.

São pessoas que guardam em si feitos extraordinários ou a sabedoria que se foi acumulando no dia-adia e nas suas rotinas, ensinam-nos a distinguir o mar pelo olhar, contam-nos os seus segredos. A valorização de cada uma dessas pessoas pela sua existência, pelo que tem para dar a conhecer de si e do que a vida lhe revelou, aquilo que as habita e que as faz serem daqui ou de onde querem estar, tudo isso são preciosidades escondidas que esperam ser reveladas.

Neste trabalho estão documentadas as histórias das seguintes pessoas:

Carlos Ambrósio, Carlos Gabriel, Carlos Manuel, Edmundo Salmonete, José Luis Parracho, José Pedro, Manuel Ferreira, Paulo Pina, Rui Amaral, Tó Simão

Que histórias partilharam..

“Estávamos a gente, ao lado da ilha Terceira, que eu me lembro, ao lado da ilha Terceira, nos Açores. Com calma, não havia vento. O barco era só a vela. Estávamos parados ali à espera que o vento viesse para nos levar para o sítio da pesca, para a Terra nova.

Estava em cima do convés com a ilha à vista - com a ilha Terceira à vista. Ainda não era meia-noite, que eu me lembro. E lá na ilha, julgávamos a gente, que a ilha estava a ser bombardeada, como estava o tempo de guerra, não é? Que a ilha estivesse a ser bombardeada.

E estávamos - os pescadores - alguns já estavam a dormir naquela altura, mas os que estavam em cima do convés, e a ver aquele espetáculo – “a ilha, epá a ilha está a ser bombardeada!

Não era, não. O capitão veio da câmara, mais o piloto, o capitão veio lá da Câmara, que era onde o capitão e o piloto dormiam. Era chamado Câmara. Vieram de lá da Câmara, cá para cima do convés, e disseram –Não estejam ralados. Isso são foguetes que eles estão lá a mandar, homem! Porque acabou a guerra”.”

— Edmundo Salmonete

“Eu até aos 18 andei no mar. E depois um dia estava para ir ao bacalhau, estava no “Júlia quarta”. E o comandante do Porto que era o…já digo o nome dele

Chegou e eu vim no comboio para Cascais, para a Capitania do Porto de Cascais, que aqui na escadinha. E ele agarrou-me pelas orelhas – e é por isso que eu tenho as orelhas pequenininhas – estendeu-me assim no ar e disse: “Vais-te apresentar na oficina do teu pai. Tens muito tempo para comer bacalhau”. E eu chorei porque a minha vida… Gostava da vida do mar, e depois fui banheiro.”

— José Luís Parracho

“Então o mar chegava a estar a partir por fora de mim e eu aqui deste lado. Conheço aquilo como as minhas mãos, não é? O mar chegava a estar a partir cá fora e eu estar aqui…

Então, olhe, um espanhol, mas olhe, esse foi outro cagaço que eu apanhei, que eu lhe ia contar a seguir. Com esse rapaz, com o Duarte e o João Choco.

Mas isso era redes, que é mais perigoso. Redes alvoradas. Pelo norte do Raso. Olhe, onde foi o Açor ao fundo, em frente aos sachais.

E a gente chegámos lá, digo eu assim, “a gente numa rasa vai à boia, corta o ferro, vamos à cabeleira, corta-se o cabo do ferro, o ferro fica, que o ferro não se perde, tem duas boias, e a gente começa a puxar a rede para fora.”

Eu já levava um cabo comprido preparado, que era para passar à rede, para fugir da rebentação e depois puxar do lado de fora.

Quando já temos meia caçada dentro, já pelo norte do Cabo Raso… E esse rapaz, o Duarte, tanto podia vir um mar da altura deste eucalipto, como da altura deste banco. Nunca dizia nada, nada. Para ele era igual. Tranquilo, calminho, sem medo nenhum.

Diz-me ele assim – “Já viste o que é que lá vem?”

Aí pá, quando eu olho para fora... Digo eu assim, “já estamos”. Metade rede dentro, metade rede fora, o barco preso.

Bem, toca de largar à força toda a caminho do Cabo da Roca, a fugir, a fugir, a fugir.

Aquilo foi.... Aquilo foi o mar mesmo a serrar, era assim, para aí a meio metro da gente. A ponta do mar apanhou a gente, para aí a meio metro, foi mesmo à queima. E a gente andou.... Andámos como daqui para aquela casa.

Sempre, sempre, sempre a caminho de noroeste. Se a gente já vai a direito ao mar, já não tinha hipótese.”

— Tó Simão

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